Conheça três mulheres quilombolas na disputa para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Conheça três mulheres quilombolas na disputa para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Professora Luciana Matias (PSOL), Maria Alves (PT) e Juhlia Santos (PSOL) são mulheres negras quilombolas que disputam, em 2026, uma vaga na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Luciana é liderança do Quilombo Família Matias, em Belo Horizonte; Maria Alves é quilombola de Ouro Verde de Minas, no Vale do Mucuri; e Juhlia Santos é integrante do Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango, também em Belo Horizonte. As três chegam à disputa estadual levando para o debate político questões relacionadas à defesa dos territórios, à permanência das comunidades, ao enfrentamento ao racismo e à garantia de direitos das populações quilombolas e demais comunidades tradicionais.

Luciana de Souza Matias,  Ekede Asà Omi e candidata pelo PSOL, é professora na Rede pública há 29 anos, liderança do Quilombo Família Mattias, comunidade quilombola urbana da capital. Professora de Artes na rede municipal desde 2015, é graduada em Educação Artística, com habilitação em Música, e em Pedagogia, além de possuir especializações em Artes Visuais e Educação Empreendedora. Sua trajetória reúne educação pública, organização comunitária, defesa dos direitos quilombolas, cultura e atuação junto aos movimentos negro e quilombola. Em 2026, disputa pela primeira vez uma vaga na Assembleia Legislativa.

Entre os eixos apresentados por Luciana estão a defesa dos povos de terreiro, da ancestralidade e dos direitos das comunidades tradicionais, o enfrentamento ao racismo climático e ambiental, a valorização dos saberes ancestrais, a proteção dos modos de vida das comunidades, o fortalecimento da agricultura familiar e da segurança alimentar e a construção de uma educação territorial produzida com a participação dos próprios povos quilombolas.

A educação pública também aparece na atuação de Luciana como professora e na defesa da Escola Municipal Paulo Mendes Campos, onde tem se mobilizado pela permanência dos estudantes e pela continuidade do projeto de educação integral da escola. A unidade tem relação com estudantes e famílias do Morro do Papagaio, e as mudanças no georreferenciamento da escola, em 2024, impediram novas matrículas de estudantes moradores da comunidade. A discussão sobre a escola está relacionada, para Luciana, ao direito dos estudantes de permanecerem vinculados a uma escola no Centro e ao próprio direito de circulação e ocupação da cidade.

Essa atuação também se aproxima da produção cultural e do cinema. Em 2026, estudantes da Escola Municipal Paulo Mendes Campos produziram o documentário Deixa o PPG Voar, sobre o cotidiano do Morro do Papagaio. A produção envolveu estudantes do 6º ao 9º ano e foi reconhecida na 4ª Mostra de Cinema Chica Pelega.

O cinema está entre os eixos da candidatura no que consiste o fortalecimento da produção cultural para a valorização das culturas afro-brasileiras e das tradições de matriz africana e da proteção dos patrimônios culturais.

Em Belo Horizonte, Luciana tem atuado no debate sobre o PL 574/2025, conhecido como “Somos Centro”. Como liderança do Quilombo Família Mattias, defende o direito do Quilombo Família Mattias e Kilombo Família Souza de se posicionarem diante de intervenções que possam afetar seus territórios. Luciana também chama atenção para a relação do Quilombo Família Mattias com o território e com o Chapéu de Napoleão, espaço utilizado em práticas religiosas.

A discussão envolve ainda o direito à consulta das comunidades quilombolas. A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estabelece que povos e comunidades interessados devem ser consultados, por meio de procedimentos apropriados e de suas instituições representativas, sempre que medidas legislativas ou administrativas possam afetá-los diretamente. No caso do PL 574, o projeto avançou sem que, durante sua tramitação, tivesse sido construído um processo de consulta às comunidades quilombolas.

Maria Alves de Souza, candidata pelo PT, é quilombola de Ouro Verde de Minas, no Vale do Mucuri, agricultora familiar, mulher preta e liderança das lutas populares em Minas Gerais. É diretora licenciada da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (FETAEMG) e construiu sua trajetória de atuação no campo, junto às comunidades e aos trabalhadores rurais. Sua primeira candidatura a deputada estadual pelo PT foi em 2018. Em 2022, voltou a disputar o mesmo cargo e, em 2026, concorre novamente à Assembleia Legislativa.

Entre as pautas apresentadas por Maria Alves estão o fortalecimento da agricultura familiar e dos sindicatos dos trabalhadores rurais, a ampliação de oportunidades para a juventude no campo e na cidade, a defesa do direito à saúde e à prevenção para trabalhadores rurais e a criação de políticas públicas de proteção e acolhimento para mulheres negras, quilombolas e trabalhadoras rurais.


Juhlia Santos, candidata pelo PSOL, é vereadora de Belo Horizonte e integrante do Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango. Foi eleita em 2024 e, segundo a Câmara Municipal, tornou-se a primeira mulher quilombola e travesti a ocupar uma cadeira no Legislativo municipal da capital. Antes do mandato de vereadora, Juhlia já havia disputado uma vaga de deputada estadual em 2018 e, em 2022, integrou a chapa coletiva Mulheres Negras Sim. Em 2026, volta a disputar uma vaga na Assembleia Legislativa.

No mandato na Câmara Municipal, Juhlia atua em pautas como a defesa dos quilombos, o enfrentamento ao racismo, a emergência climática, os direitos da população LGBTQIA+ e o fortalecimento da cultura. Na candidatura à Assembleia Legislativa, estão presentes temas relacionados à preservação dos territórios, das serras e dos cursos d'água e ao enfrentamento da emergência climática.

A defesa dos territórios também passa pelos espaços de decisão

A presença dessas candidaturas também se distribui por diferentes regiões de Minas Gerais. Entre as 16 candidaturas a deputado estadual analisadas, 43,75% são da Região Metropolitana de Belo Horizonte, com sete nomes de Belo Horizonte e Contagem. Outras 18,75% estão na Região Central, com candidaturas de Congonhas, Mariana e Itabira. As demais estão distribuídas pelo estado: 6,25% no Triângulo Mineiro, 6,25% no Noroeste de Minas, 6,25% no Jequitinhonha, 6,25% no Vale do Aço e 6,25% no Vale do Mucuri.

A presença quilombola nos espaços institucionais de decisão ganha dimensão concreta quando projetos urbanos podem afetar diretamente territórios, modos de vida e referências culturais dessas comunidades. É o que aparece no debate sobre o PL 574/2025. Juhlia Santos esteve entre os parlamentares que votaram contra o projeto, aprovado em segundo turno pela Câmara Municipal de Belo Horizonte, em 31 de agosto, com 32 votos favoráveis e cinco contrários.

A votação se insere em uma discussão mais ampla sobre os impactos de processos de transformação urbana sobre comunidades que já vivem e constroem suas histórias nesses territórios. Grandes empreendimentos podem alterar relações de vizinhança, formas de circulação, espaços de convivência, referências culturais e as próprias condições de permanência das famílias.

São nos espaços de decisão que se definem políticas e projetos capazes de interferir diretamente na vida das comunidades, na preservação de seus territórios e na continuidade de seus modos de vida. Diante disso, as candidaturas de Luciana Matias, Maria Alves e Juhlia Santos evidencia a importância da presença de mulheres quilombolas na política institucional.


Assinatura

Mariana Moreira Cordeiro

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