A medicina do adolescente envolve pais, familiares e pediatras que devem estar cada vez mais atentos às questões da adolescência de forma preventiva porque é nesta fase que estão se formando os hábitos que vão durar a vida toda
São Paulo, agosto de 2025 – As taxas preocupantes de gravidez na adolescência, o crescimento dos transtornos mentais e a baixa cobertura vacinal são questões cada vez mais presentes na rotina dos médicos pediatras. No entanto, nem todos estão preparados para ouvir o sofrimento desses jovens, cuja saúde mental se torna mais complexa a cada dia. Dependendo da situação, a atenção e a escuta se tornam essenciais para identificar sinais relacionados ao sofrimento psíquico e cuidar desses adolescentes.
Dados da última Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (Pense), de 2019, realizada pelo IBGE e Ministério da Saúde, mostram que quase 40% dos adolescentes sentem que seus pais não se importam com eles ou não estão atentos às suas dificuldades. Segundo Benito Lourenço, médico de adolescentes e pediatra com mais de 25 anos de experiência, responsável pelo Serviço de Adolescentes do Instituto da Criança e do Adolescente do HCFMUSP, é fundamental que os profissionais estejam atentos às provocações e sinais que esses jovens apresentam. “É importante conversar com eles sobre desafios na internet, questões íntimas, dúvidas sobre identidade de gênero, escolhas profissionais, entre outros temas, afirma o especialista.
Lourenço destaca que “não basta encaminhar um adolescente com espinhas ao dermatologista; é preciso debater conceitos de neurociências para entender como funciona a cabeça do jovem. Assim, é possível orientar sobre hábitos alimentares, atividade física, vacinação e uma sexualidade saudável e responsável”. Segundo o Pense, 30% dos adolescentes já tiveram relações sexuais, mas 40% não usam preservativo, indicando um momento crítico no uso de métodos contraceptivos. Além disso, cerca de 15% já sofreram atos libidinosos sem consentimento, e quase 18% de meninas se cortam, números alarmantes que evidenciam a necessidade de abordagem aberta e cuidadosa na consulta.
Para aprimorar esse atendimento, o Instituto da Criança e do Adolescente em parceria com o HCX, braço educacional e de gestão do conhecimento do HCFMUSP, lançou um curso básico de atualização intitulado “Dominando o Atendimento ao Adolescente”. Com 10 horas de duração, o curso é voltado a médicos de família, clínicos gerais, pediatras, ginecologistas e demais profissionais que atendem adolescentes. O objetivo é capacitá-los a escutar, conversar e manejar questões clínicas e emocionais dessa faixa etária, incluindo temas como sigilo, saúde reprodutiva, vacinação e comunicação eficaz.
Embora a pediatria inclua o atendimento de adolescentes, muitos profissionais tendem a encaminhá-los para outros especialistas ao atingirem 11 ou 12 anos. O curso busca transformar o pediatra em um profissional de saúde integral, capaz de acompanhar o adolescente até os 21 anos, considerando suas características atuais e familiares. Segundo o pediatra, já está em preparação um módulo avançado que abordará temas contemporâneos como saúde digital, saúde mental, suicídio, transtornos alimentares e as mudanças rápidas na puberdade.
Lourenço observa que, no Brasil, há cerca de 47 mil pediatras ativos, mas apenas aproximadamente 300 atuam diretamente com adolescentes. O objetivo não é formar mais especialistas, mas capacitar os pediatras e clínicos gerais a atenderem jovens nessa fase, que hoje sofre de um distanciamento causado pelo mundo virtual e pelo afastamento familiar. O curso cobre saúde física, mental, vacinação, contracepção, orientação sexual e tratamento de problemas comuns como acne.
Outro ponto importante é a cobertura vacinal dos adolescentes, que, embora não tenha caído, ainda não atinge os níveis ideais. Muitas vezes, os adolescentes evitam os postos de saúde por vergonha ou falta de acolhimento, já que esses locais são tradicionalmente voltados para bebês, gestantes e idosos. Vacinas essenciais como HPV, dengue e meningite têm coberturas abaixo de 80%, quando o ideal é 95% das pessoas protegidas, e estamos muito longe disso”, diz o médico.
Ele afirma que a vacinação contra o HPV em meninos adolescentes, por exemplo, é uma cobertura que não passa de 60%. Normalmente a vacina deve ser tomada pelos adolescentes na faixa entre 9 a 14 anos, mas temporariamente a vacina de HPV foi liberada para aplicação em jovens até os 19 anos, totalmente gratuita pelo SUS. Por isso, ele enfatiza que é preciso insistir com uma linguagem fácil e atraente, e convidar os adolescentes a colocar seu cartão vacinal em dia, principalmente as vacinas básicas.
As inscrições para participação do curso podem ser feitas no site do HCX, conforme link:
https://ensino.hcxfmusp.org.br/online/dominando-o-atendimento-de-adolescentes/p
Sobre o HCX Fmusp
O HCX Fmusp é o centro educacional que reúne e faz a gestão do conhecimento do complexo HCFMUSP. Representa uma nova era no ensino em saúde e está amparado nas inúmeras conquistas em seus mais de 15 anos de história. Desde sua fundação, o HCX qualificou mais de 650 mil profissionais de saúde nos mais de 350 cursos que oferece. Mais de 700 mil alunos foram certificados. São formações EAD, pós-graduações, treinamentos de simulação e programas médicos e multiprofissionais reconhecidos no Brasil e no exterior.
HCX do Hospital das Clínicas da FMUSP
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