
Em julho de 1995, 30 anos atrás, a Amazon registrava sua primeira venda online. O que começou como uma simples livraria digital transformou-se no maior marketplace do mundo, revolucionando não apenas o comércio eletrônico, mas também estabelecendo novos padrões para a gestão de estoque e logística.
Hoje, enquanto celebramos esse marco histórico, o varejo brasileiro enfrenta um desafio cada vez mais urgente: como lidar com produtos parados que comprometem o fluxo de caixa e a rentabilidade.
Segundo a Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2024, a média geral de perdas no varejo caiu de 1,77% para 1,51% em 2024, representando cerca de R$ 36,5 bilhões em prejuízos. A maior parte dessas perdas está relacionada a quebras operacionais — produtos sem condições de venda ou perdas identificadas (42,93%) — e erros de inventário (9,46%).
Embora os dados indiquem uma leve melhora, os R$36,5 bilhões em prejuízos continuam sendo um volume expressivo, que impacta diretamente a competitividade do setor. O cenário exige soluções inovadoras, especialmente em um mercado que movimenta trilhões de reais no último ano.
"O mercado brasileiro ainda carece de soluções eficientes para lidar com estoques parados. Muitas empresas sofrem com produtos que não giram há meses ou anos, comprometendo capital de giro e espaço físico", afirma o CEO da Kwara, plataforma de leilões online, Thiago da Mata.
Para Eduardo Augusto, CEO da IDK, consultoria especializada em tecnologia, design e comunicação, o problema vai além da gestão convencional. “A Amazon mudou o jogo no varejo e na tecnologia, criando novas regras para o mercado e transformando a forma como consumimos. Do Amazon Prime, que fez da entrega rápida um padrão e fidelizou os clientes por assinatura com mais de 200 milhões de membros no mundo, à AWS, que domina a computação em nuvem, a empresa não só inovou, ela reinventou setores inteiros. O Marketplace abriu portas para milhões de vendedores, enquanto a Alexa colocou a inteligência artificial na rotina de milhões de pessoas. O resultado é uma empresa que dita tendências em tecnologia, experiência do usuário, fidelização e operação”.
Como a IA e leilões digitais estão salvando o caixa das empresas
Conforme dados da pesquisa “IA: Problema ou Solução?”, realizada pela MindMiners, 58% das pessoas confiam na integração da inteligência artificial no varejo e e-commerce, o que mostra uma ampla possibilidade para que a popularidade de soluções que facilitem a conexão entre empresas que querem vender seus estoques parados e clientes que desejam adquirir esses itens, seja para uso pessoal, em suas próprias empresas ou até mesmo para revendê-los.
Portanto, as soluções tecnológicas emergem como alternativas cada vez mais viáveis para resolver o problema do estoque parado. “A inteligência artificial generativa está revolucionando a forma como as empresas gerenciam seus estoques. Sistemas de recomendação avançados preveem demanda, otimizam preços e identificam produtos com baixa rotatividade antes que se tornem um problema", esclarece o especialista em tecnologia e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Kenneth Corrêa.
Segundo Kenneth, as empresas estão adotando uma abordagem mais holística para entender seus consumidores. “Plataformas de dados do cliente (CDPs) já preveem a rotatividade de produtos e segmentam campanhas para escoar estoques específicos e personalizar ofertas para diferentes regiões, perfis de consumo e ofertas," acrescenta.
Mas quando a tecnologia preditiva não é suficiente para reverter o acúmulo, entra em cena uma estratégia que tem ganhado força no país: os leilões digitais.
"Os leilões corporativos representam uma forma rápida, segura e eficiente de transformar estoque em capital com liquidez imediata. Produtos que antes ocupavam espaço e geravam prejuízo podem encontrar novos mercados e novos públicos por meio dessas plataformas", explica Da Mata, da Kwara. Segundo ele, empresas de diversos segmentos — de eletrodomésticos à mobiliário — já utilizam esse recurso como parte do planejamento estratégico
O paradoxo das empresas sem estoque
Enquanto uns enfrentam o desafio do excesso, outros apostam no caminho oposto: operar sem estoque próprio. A própria Amazon, pioneira no e-commerce, atua hoje em um modelo híbrido em que cerca de 60% das vendas vêm de terceiros por meio do Amazon Marketplace, o que permite oferecer milhões de produtos sem precisar armazená-los.
No Brasil, o Mercado Livre adotou modelo semelhante, conectando vendedores e compradores sem necessariamente manter estoque físico. Plataformas como Shopee, AliExpress e modelos de dropshipping também permitem que pequenos empreendedores vendam sem investir previamente em inventário, transferindo a responsabilidade para fornecedores.
"Embora o modelo sem estoque pareça atrativo, ele traz seus próprios desafios. Empresas que não controlam seu inventário podem enfrentar falhas na entrega, inconsistência na qualidade e dificuldade para escalar", alerta o especialista em vendas e CEO da Receita Previsível, Thiago Muniz.
Para ele, o futuro está na hibridização: “Empresas que combinam estoque próprio estratégico com parcerias inteligentes terão mais flexibilidade sem abrir mão do controle sobre a experiência do cliente.”
Tendências e perspectivas para os próximos anos
O comércio eletrônico no Brasil deve crescer, em média, 19% ao ano até 2027, segundo projeções da Payments CMI. Diante desse ritmo acelerado, a gestão inteligente de estoque passa a ser não só um diferencial, mas um pilar de sustentabilidade do negócio.
Kenneth Corrêa aposta em um cenário de convergência tecnológica: "Nos próximos anos, veremos a integração entre sistemas de gestão de estoque, inteligência artificial preditiva e plataformas de liquidação automatizada. A Amazon já experimenta isso com sua tecnologia Just Walk Out e sistemas de recomendação em tempo real."
Já Eduardo Augusto reforça a importância da execução: "Nunca tivemos tanta ferramenta disponível e tanto conhecimento compartilhado. A diferença está em escolher os parceiros certos e manter o foco. Vendas sempre serão prioridade, um negócio que não vende, quebra."
Para Thiago da Mata, a combinação de inovação e sustentabilidade será a chave do próximo ciclo: "Ao vender produtos parados para novos compradores por meio de leilões digitais, estamos promovendo economia circular e uso mais eficiente de recursos de uma forma segura e transparente. É uma solução que beneficia empresas, consumidores e o meio ambiente. Grandes organizações já vêm utilizando essa estratégia e quem ainda não começar ficará para trás. Os leilões corporativos representam uma forma rápida, segura e eficiente de transformar estoque em capital com liquidez imediata. Produtos que antes ocupavam espaço e geravam prejuízo podem encontrar novos mercados e novos públicos por meio dessas plataformas", explica Da Mata, da Kwara.
Segundo ele, empresas de diversos segmentos — de eletrodomésticos à mobiliário — já utilizam esse recurso como parte do planejamento estratégico. No fim das contas, não se trata apenas de vender mais, mas de vender melhor, com inteligência, eficiência e estratégia. O futuro do varejo está nas mãos de quem souber transformar gargalos em vantagem competitiva.
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