Cada vez mais comum na rotina de quem enfrenta jornadas longas, excesso de telas e noites mal dormidas, a tentativa de “compensar” o sono perdido aos finais de semana pode não trazer os benefícios esperados. Embora dormir algumas horas a mais no sábado ou domingo ajude a reduzir parte do cansaço acumulado, especialistas alertam: o organismo não consegue recuperar completamente os prejuízos causados pela privação frequente de sono.
Segundo o médico e pesquisador do Instituto do Sono, Dr. Gustavo Moreira, o chamado “débito de sono” funciona como uma conta que não pode ser quitada integralmente depois. “Você pode reduzir parte do prejuízo, mas não existe um pagamento integral. A privação de sono vai acumulando impactos no organismo, especialmente quando torna-se rotina”.
O hábito de dormir pouco durante a semana e tentar compensar nos dias de folga está relacionado ao chamado jet lag social, termo utilizado para descrever o desalinhamento entre o relógio biológico e os horários impostos pela rotina social e profissional. Na prática, é como se o corpo sofresse pequenas mudanças constantes de fuso horário entre os dias úteis e os finais de semana.
De acordo com o especialista, diferenças superiores a duas horas entre os horários de sono da semana e dos finais de semana já podem trazer impactos à saúde. “Quanto maior essa diferença, maior o comprometimento do organismo. O corpo perde regularidade e isso afeta funções metabólicas, cardiovasculares e cognitivas”, afirma Moreira.
Os efeitos da privação crônica de sono vão além do cansaço. Estudos já associam noites mal dormidas ao aumento do risco cardiovascular, alterações nos níveis de glicose sanguínea, ganho de peso, piora da coordenação motora, redução do desempenho em tarefas simples e prejuízo de funções cognitivas. Isso acontece porque dormir menos interfere diretamente em processos hormonais, metabólicos e inflamatórios do organismo.
Além disso, a tentativa de recuperar o sono com longos períodos dormindo durante o dia pode acabar perpetuando o problema. “Quando a pessoa dorme demais durante a tarde ou muda muito seus horários aos finais de semana, ela dificulta ainda mais a regularização do sono nos dias seguintes”, complementa o médico.
Segundo o Dr. Gustavo, situações pontuais, como uma noite mal dormida após um evento ou viagem, podem ser parcialmente compensadas ao retornar rapidamente à rotina habitual. “Se uma pessoa costuma dormir oito horas e dormiu menos em uma noite específica, dormir um pouco mais na noite seguinte pode ajudar. O problema é quando a privação se torna frequente”, ressalta.
Outro ponto destacado pelo especialista é que a tolerância à privação de sono varia entre as pessoas e tende a diminuir com a idade. Após os 40 anos, por exemplo, o organismo costuma responder pior às alterações constantes no padrão de sono.
Para preservar a saúde física e mental, a principal recomendação continua sendo manter horários regulares para dormir e acordar, inclusive aos finais de semana. “O ideal não é tentar compensar depois, mas evitar acumular o débito ao longo da semana”, conclui o médico.
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