Exposição "Shh..." Explora Erotismo, Política do Corpo e Finitude em São Paulo

Exposição "Shh..." Explora Erotismo, Política do Corpo e Finitude em São Paulo

A voz do paulistano Edgard de Souza (nascido em 1961) nunca precisou erguer o tom para fraturar as convenções do espaço tridimensional e do desejo no Brasil. Emergindo no início da década de 1980 — momento em que as cenas artísticas do Rio de Janeiro e de São Paulo apostavam no retorno gestual da pintura —, De Souza tomou a contramão: abraçou o rigor artesanal da escultura e do objeto para investigar o corpo humano em sua densidade tátil, fragmentada e ambígua. 

Sua individual Shh..., que reúne obras produzidas entre 2012 e 2026, apresenta um retorno transformado às formas que marcam suas mais de quatro décadas de trajetória. A mostra abre-se com autorretratos a lápis de cor em que o artista encarna a figura do diabo, conectando-se a uma escultura talhada em tora de madeira consumida por chamas — uma figura que protege o rosto enquanto tapa a própria boca. 

O fogo transmuda-se em obstáculo físico quando Edgard fecha uma das portas da galeria cobrindo-a com brasas em giz pastel, transformando a passagem arquitetônica em uma imagem de interdição. Na tapeçaria e nos bordados, desenvolvidos há uma década a partir do acúmulo minucioso de linhas que registram o alcance de seus próprios gestos corporais, a abstração cede espaço a figurações menos ingênuas: manchas que oscilam entre a delicadeza de copas floridas e a violência iminente de explosões e impactos.

No andar superior, a corporalidade ambígua atinge seu ápice com esculturas revestidas em pele de vaca apoiadas sobre pés de mobiliário antigo — volumes orgânicos de anatomia incerta que evocam o mobiliário doméstico e o fetiche. A essas peças junta-se Autofagia (2026), monumental bronze que amplia uma proposição de 2013: dois corpos fundidos pela cintura que se dobram um sobre o outro em um abraço onde é impossível distinguir o combate da volúpia. 

A exposição encerra-se dia 31 Outubro e com o próprio artista retornando em uma pintura a óleo na figura do diabo, levando o indicador aos lábios em um gesto de silenciamento. Com Shh..., Edgard de Souza reafirma o corpo não como representação passiva, mas como território vivo de memória, resistência homoerótica e perpétua metamorfose.

Assinatura

Bela Souza

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