Edson Braga alerta que gargalos entre campo e consumidor podem ameaçar abastecimento

Edson Braga alerta que gargalos entre campo e consumidor podem ameaçar abastecimento

Empresário do setor alimentício afirma que produção agrícola, sozinha, não garante que alimentos cheguem à população

O crescimento da produção agrícola mundial não será suficiente para garantir o abastecimento nas próximas décadas se países e empresas não ampliarem também sua capacidade de armazenar, processar, conservar e distribuir alimentos. A avaliação é de Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência.

Segundo ele, parte dos riscos futuros pode estar justamente no caminho entre o campo e a mesa. Falhas de infraestrutura, energia, água, cadeia fria, logística e capacidade industrial podem impedir que uma produção agrícola elevada se transforme em oferta efetiva ao consumidor.

A discussão ganha importância em um cenário marcado por eventos climáticos extremos, conflitos, oscilações nos custos de energia e maior pressão sobre cadeias globais de abastecimento.

Produção elevada pode conviver com perdas

A disponibilidade de matéria-prima não elimina problemas de armazenamento e distribuição.

Produtos agrícolas podem ser perdidos antes do consumo por falta de refrigeração, processamento, transporte adequado ou infraestrutura para conservação.

Para Braga, essa diferença mostra que agricultura e indústria precisam ser analisadas de forma integrada.

Um país pode apresentar elevada produção de leite, frutas, grãos ou proteínas e, ao mesmo tempo, enfrentar limitações para transformar esses produtos ou disponibilizá-los durante todo o ano.

Capacidade industrial amplia aproveitamento da produção

Fábricas de alimentos cumprem uma função que vai além da transformação comercial.

Processos como pasteurização, congelamento, secagem, fermentação e embalagem aumentam a estabilidade dos produtos e permitem que eles sejam transportados por distâncias maiores.

Essa capacidade também contribui para reduzir perdas de matérias-primas com períodos curtos de utilização.

Na avaliação do empresário, ampliar processamento próximo às regiões produtoras pode ajudar determinados mercados a aproveitar melhor aquilo que já produzem.

Desafios variam entre as regiões

Os gargalos são diferentes conforme a estrutura econômica e industrial de cada localidade.

Em partes da África, por exemplo, ampliar armazenamento, energia, processamento e cadeia fria pode gerar impacto relevante sobre a oferta de alimentos.

Na Europa, a discussão envolve custos energéticos, competitividade industrial e dependência de determinadas matérias-primas.

Os Estados Unidos possuem grande escala de produção e distribuição, mas sistemas concentrados também podem sofrer impactos relevantes quando ocorrem rupturas logísticas ou eventos climáticos.

Já a América Latina reúne grande capacidade agrícola e pode aumentar a participação nas etapas de transformação, tecnologia e desenvolvimento de produtos.

Água e energia ganham peso nas decisões

A localização de novas fábricas deverá considerar cada vez mais a disponibilidade de água e energia.

No setor alimentício, água é utilizada em processos de limpeza, resfriamento, vapor, higienização e produção. Isso aumenta a importância de sistemas de reuso, recuperação e controle de consumo.

A energia também é essencial para cocção, refrigeração, congelamento, secagem e armazenamento.

Uma interrupção pode afetar rapidamente produtos que dependem de temperatura controlada.

Cadeia fria pode reduzir desperdício

Refrigeração e congelamento estão entre as estruturas mais importantes para preservar carnes, laticínios, pescados, frutas, vegetais e refeições prontas.

A expansão dessa infraestrutura pode aumentar o aproveitamento da produção existente, especialmente em regiões onde as perdas ainda são elevadas.

Braga destaca que reduzir desperdícios pode ter efeito semelhante ao aumento da capacidade produtiva, já que cada alimento descartado também representa perda de água, energia, transporte, trabalho e capital.

Embalagem também participa da conservação

A redução do uso de materiais é uma preocupação crescente, mas decisões sobre embalagem precisam considerar sua função na proteção do alimento.

Barreiras contra umidade, oxigênio, luz e contaminação podem aumentar o tempo de conservação e reduzir perdas.

Por isso, uma embalagem com menos material nem sempre representa a melhor solução quando provoca maior descarte do produto.

Empresas passam a discutir eficiência e resiliência

Estratégias como estoques reduzidos, concentração de fornecedores e produção centralizada ajudaram empresas a cortar custos nas últimas décadas.

Ao mesmo tempo, crises recentes mostraram que cadeias excessivamente dependentes de poucos fornecedores ou rotas podem ficar vulneráveis.

Fornecedores alternativos, maior flexibilidade de produção e diferentes origens de matéria-prima podem ganhar importância na estratégia industrial.

O desafio será encontrar equilíbrio entre custo e capacidade de resposta.

Produção regional pode reduzir exposição logística

O avanço de sistemas digitais também facilita a gestão de fábricas localizadas em diferentes regiões.

Informações de produção, qualidade, demanda e manutenção podem ser compartilhadas entre unidades.

Isso permite que uma empresa mantenha padrões comuns mesmo com parte da capacidade produtiva próxima dos mercados consumidores.

Uma fábrica regional pode ter custo unitário maior do que uma planta centralizada, mas reduzir distâncias, prazos e dependência logística.

Geopolítica influencia cadeias de alimentos

Conflitos internacionais, restrições de exportação e mudanças tarifárias também podem interferir rapidamente na disponibilidade e no preço de matérias-primas.

Por isso, empresas têm incorporado cenários geopolíticos às decisões de compras e localização industrial.

A estratégia, segundo Braga, não consiste em prever exatamente a próxima crise, mas em evitar dependência excessiva de um único fornecedor, país ou rota.

Desafio vai além de produzir mais

Para Edson Braga, aumentar a produção agrícola continuará sendo necessário, mas a discussão sobre o futuro da alimentação precisa incluir toda a estrutura responsável por levar essa produção até o consumidor.

Armazenamento, processamento, energia, água, cadeia fria, logística e capacidade industrial passam a fazer parte da mesma equação.

A questão deixa de ser apenas quanto alimento o mundo consegue produzir.

Passa também por entender quanto dessa produção consegue chegar efetivamente à mesa.

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