João Carlos Mansur afirma que fundos administrados pela gestora teriam sido usados para ocultar recursos; acordo firmado com a PGR ainda depende de homologação do STF
O empresário João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos, relatou em acordo de colaboração premiada firmado com a Procuradoria-Geral da República (PGR) supostos pagamentos de propina atribuídos a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, a autoridades públicas.
Segundo as informações divulgadas sobre a colaboração, Mansur afirmou que fundos administrados pela Reag teriam sido utilizados para ocultar movimentações financeiras relacionadas aos pagamentos.
As declarações integram uma delação que ainda precisa ser homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Portanto, as afirmações feitas pelo colaborador permanecem como elementos de investigação e não representam, por si só, comprovação das condutas atribuídas aos citados.
Mansur teria detalhado uso de fundos e intermediários
De acordo com o relato publicado originalmente pela imprensa, Mansur apresentou informações sobre a atuação da Reag e de fundos de investimento em operações ligadas a Vorcaro.
Ele também teria identificado pessoas que, segundo sua versão, teriam atuado como interpostas pessoas ou “laranjas” em determinadas movimentações.
A colaboração inclui ainda informações sobre:
- fluxo de recursos;
- valores enviados ao exterior;
- estruturas financeiras utilizadas nas operações;
- pessoas que teriam participado das movimentações;
- possíveis caminhos para recuperação dos ativos.
Parte dos recursos investigados estaria mantida em estruturas offshore fora do Brasil.
Segundo a apuração divulgada, investigadores avaliam que as informações fornecidas na colaboração podem facilitar a localização e eventual recuperação desses valores.
Acordo prevê multa de R$ 40 milhões
Como parte da colaboração premiada, Mansur teria assumido o compromisso de pagar multa de R$ 40 milhões.
O acordo foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, responsável pela relatoria das investigações relacionadas ao Banco Master.
A homologação judicial ainda é necessária para que o acordo produza os efeitos previstos no âmbito da colaboração.
A Polícia Federal teria participado da fase inicial das conversas, mas não permaneceu nas negociações até a formalização do entendimento com a PGR.
Proposta de delação foi apresentada em agosto
Mansur apresentou sua proposta de colaboração à Procuradoria-Geral da República em agosto de 2026.
Segundo as informações divulgadas, o material reunia ao menos 17 temas, tendo Daniel Vorcaro como um dos principais focos.
Em 2 de setembro de 2026, a PGR assinou o acordo e o encaminhou ao ministro André Mendonça.
A colaboração é apontada como a primeira firmada pela Procuradoria no contexto da chamada Operação Compliance Zero, investigação que apura suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo o Banco Master e outras estruturas.
Fundos da Reag estão no centro das apurações
As investigações mencionadas no caso examinam operações envolvendo fundos administrados pela Reag e o Banco Master.
Segundo as hipóteses investigativas, algumas dessas estruturas teriam sido utilizadas para movimentar recursos do banco e direcioná-los a finalidades distintas das formalmente apresentadas.
Entre as suspeitas sob análise está a possibilidade de recursos terem sido destinados ao patrimônio pessoal de Vorcaro ou a pagamentos indevidos.
Essas hipóteses ainda dependem de investigação, produção de provas e eventual análise judicial.
O Banco Central também identificou operações consideradas irregulares entre o Banco Master e fundos da Reag Trust no período de julho de 2023 a julho de 2024, segundo o material divulgado.
Defesa de Vorcaro diz não ter acesso aos anexos
A defesa de Daniel Vorcaro afirmou à imprensa que ainda não teve acesso aos anexos da colaboração premiada de Mansur.
Por esse motivo, declarou não ter condições de se manifestar especificamente sobre as acusações atribuídas ao empresário.
A defesa de João Carlos Mansur, conforme a publicação original, não apresentou comentário.
Esse ponto é relevante porque as acusações ainda estão em fase investigativa e o conteúdo completo da colaboração não é público.
Quem é João Carlos Mansur?
João Carlos Mansur é bacharel em Ciências Contábeis pela Fundação Armando Alvares Penteado e construiu carreira no mercado financeiro.
Ele afirma possuir mais de 35 anos de experiência no setor e ter participado da estruturação de mais de 200 fundos de investimento.
Mansur fundou a Reag em 2012.
Permaneceu como presidente do conselho de administração da empresa até outubro de 2025.
Em seu período de expansão, a gestora chegou a administrar aproximadamente R$ 341,5 bilhões em recursos, segundo os números divulgados sobre a companhia.
Além da Reag, Mansur teve atuação profissional em empresas de diferentes setores, entre elas PwC, Monsanto, Tishman Speyer, GetNinjas e Azevedo & Travassos.
Também teve participação no futebol, integrando conselhos do Palmeiras e participando de discussões relacionadas à construção do Allianz Parque quando atuava na WTorre.
Mansur já foi alvo de outras investigações
O empresário também apareceu em outras investigações envolvendo suspeitas de crimes financeiros.
Entre elas está a Operação Carbono Oculto, relacionada a suspeitas de fraudes e lavagem de dinheiro envolvendo o setor de combustíveis.
Mansur também foi alvo da Operação Compliance Zero, que investiga possíveis crimes financeiros relacionados ao Banco Master.
Ser investigado ou citado em uma operação, contudo, não significa condenação. A responsabilidade criminal de qualquer pessoa depende de prova, contraditório, defesa e decisão judicial.
Delação premiada não equivale a prova definitiva
A colaboração premiada é um instrumento utilizado em investigações criminais para obter informações de pessoas que concordam em colaborar com as autoridades.
O colaborador pode fornecer:
- documentos;
- nomes;
- detalhes de operações;
- localização de recursos;
- descrição de estruturas financeiras;
- informações sobre outros envolvidos.
Mas as declarações precisam ser verificadas.
No sistema jurídico brasileiro, a palavra de um colaborador não deve ser tratada isoladamente como prova suficiente para condenação. Investigadores precisam buscar elementos independentes de corroboração capazes de confirmar ou rejeitar aquilo que foi relatado.
No caso envolvendo Mansur, essa etapa ganha especial importância diante da gravidade das acusações atribuídas à colaboração, que envolveriam pagamentos a autoridades públicas, movimentações internacionais e fundos de investimento.
Recuperação de recursos no exterior pode ser uma das frentes
Outro ponto relevante da colaboração é a indicação de possíveis recursos mantidos fora do país.
A identificação das contas, empresas ou estruturas utilizadas pode permitir que investigadores reconstruam o caminho do dinheiro.
Normalmente, a recuperação de ativos mantidos no exterior pode exigir cooperação jurídica internacional e procedimentos junto às autoridades dos países envolvidos.
Segundo as informações divulgadas sobre a colaboração, os investigadores avaliam que a participação de Mansur e as informações fornecidas por ele podem simplificar parte desse processo.
Ainda assim, eventual repatriação de recursos dependerá da confirmação de sua origem, da situação jurídica dos ativos e das decisões tomadas pelas autoridades responsáveis.
O que acontece agora?
O primeiro ponto decisivo é a análise do acordo de colaboração pelo Supremo Tribunal Federal.
O ministro André Mendonça deverá avaliar os aspectos jurídicos necessários à homologação.
Caso o acordo seja homologado, as autoridades poderão avançar na investigação das informações apresentadas pelo colaborador e verificar quais delas possuem elementos de confirmação.
Entre as questões que poderão ser investigadas estão a origem e o destino dos recursos, os beneficiários das operações, a eventual participação de intermediários e a existência de patrimônio mantido no exterior.
Também será necessário distinguir as declarações do colaborador de fatos efetivamente comprovados por documentos, movimentações bancárias, comunicações, depoimentos ou outras evidências.
Caso pode ampliar investigação sobre Banco Master
A colaboração de Mansur pode se tornar relevante para as investigações relacionadas ao Banco Master caso os elementos fornecidos sejam confirmados de maneira independente.
Isso porque a Reag administrava fundos que aparecem em diferentes frentes de apuração envolvendo o banco.
Se os investigadores conseguirem reconstruir o fluxo dos recursos e confirmar a finalidade de determinadas operações, a delação poderá abrir novas linhas investigativas e identificar outros participantes.
Por outro lado, alegações que não encontrem respaldo documental ou probatório poderão perder força durante a apuração.
Esse é justamente o papel da fase investigativa.
Conclusão
A colaboração premiada de João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos, adiciona uma nova frente às investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Segundo o relato atribuído ao empresário, fundos administrados pela gestora teriam sido utilizados para ocultar supostos pagamentos de propina a autoridades públicas e outras movimentações financeiras.
Mansur também teria fornecido informações sobre intermediários, recursos enviados ao exterior e possíveis caminhos para recuperação de ativos.
As acusações, porém, ainda precisam ser verificadas pelas autoridades.
O acordo de colaboração foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal e ainda aguarda homologação. A defesa de Vorcaro afirmou não ter acesso aos anexos e, por isso, não comentou especificamente as alegações.
Até que existam provas independentes e decisões judiciais, as afirmações contidas na delação devem ser apresentadas pelo que são: alegações feitas por um colaborador dentro de uma investigação em andamento.
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