Nos últimos anos, a presença feminina no mercado imobiliário brasileiro deixou de estar concentrada apenas nas áreas comerciais e de relacionamento com clientes. Cada vez mais mulheres passaram a liderar incorporadoras, construtoras, escritórios de advocacia, instituições financeiras e empresas de tecnologia ligadas ao setor. O debate, agora, passa a ser outro: como ampliar sua participação nos espaços onde são tomadas as decisões estratégicas que influenciam o futuro do mercado.
A discussão ganha relevância e ajuda a colocar em perspectiva as transformações na composição do mercado e os desafios relacionados à participação feminina em diferentes áreas da atividade imobiliária.
O avanço da presença feminina no mercado abre uma nova agenda para o setor: ampliar a ocupação de mulheres em posições estratégicas, como conselhos de administração, diretorias, entidades representativas e fóruns que discutem habitação, crédito imobiliário e desenvolvimento urbano.
Apesar das transformações, os desafios permanecem relevantes. Em pesquisa divulgada pelo Instituto Mulheres do Imobiliário (IMI) narevistaO que 7 Anos Constroem, os dados mostram que apenas 28% das profissionais perceberam os cargos de poder como ocupados por mulheres. A pesquisa divulgada na publicação do IMI também aponta que 61% já passaram por alguma situação de assédio no ambiente de trabalho.
Os números mostram que o debate já não se limita à ampliação da participação feminina no mercado imobiliário, mas também à presença das mulheres nos espaços de decisão que definem os rumos do setor.
Da representatividade à influência
Laura Suarez, coordenadora de Relações Institucionais e Legislativas da Secovi-RJ, destaca que fortalecer a presença feminina também significa ampliar sua participação na construção de agendas coletivas capazes de influenciar empresas, entidades representativas e o poder público.
"É importante qualificar essa participação e construir agendas comuns. O advocacy acontece quando conseguimos transformar as demandas em propostas concretas e reunir diferentes atores em torno delas", afirmou.
Na avaliação da especialista, criar espaços permanentes de diálogo entre empresas, entidades e profissionais é um passo importante para ampliar a participação das mulheres nas discussões que moldam o setor.
Essa construção passa também pela formação de novas lideranças. Nos últimos anos, programas de mentoria, redes de relacionamento e iniciativas voltadas ao desenvolvimento profissional ganharam espaço no mercado imobiliário, criando oportunidades para que mais mulheres assumam posições estratégicas.
Para Luciana Ismael, presidente do Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário - IBRADIM, esse movimento depende tanto da capacitação técnica quanto da criação de ambientes onde as profissionais desenvolvam confiança para ocupar posições de protagonismo.
"Criamos o IBRADIM Mulheres para fortalecer essas mulheres, para que elas possam ser líderes e tenham coragem de ocupar o seu lugar à mesa. Ao longo das edições, além dos temas técnicos ligados ao Direito Imobiliário, promovemos debates sobre racismo estrutural, assédio, patriarcado e desenvolvimento de carreira, sempre prestigiando mulheres como palestrantes e referências em suas áreas."
Governança e diversidade caminham juntas
A ampliação da participação feminina nos espaços de decisão também coloca a diversidade no centro das discussões sobre governança no mercado imobiliário. Mais do que aumentar a presença de mulheres nas empresas, o movimento envolve ampliar sua participação em diretorias, conselhos de administração e entidades representativas.
Organizações com lideranças mais diversas tendem a ampliar sua capacidade de inovação, compreender melhor diferentes perfis de consumidores e desenvolver estratégias mais alinhadas às transformações sociais, econômicas e demográficas que impactam o setor. Na América Latina, empresas com maior diversidade de gênero nas equipes executivas têm 14% mais probabilidade de superar a performance de seus pares, segundo estudo da McKinsey.
Para Elisa Rosenthal, presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário (IMI), ampliar a participação feminina nas decisões fortalece todo o ecossistema imobiliário.
"Advocacy também é sobre construir caminhos coletivos. Quando as mulheres compartilham conhecimento, ocupam espaços de decisão e abrem oportunidades para outras profissionais, fortalecemos não apenas suas carreiras, mas todo o mercado imobiliário. A diversidade traz novas perspectivas, melhora a qualidade das decisões e torna o setor mais preparado para enfrentar os desafios do futuro."
Na mesma linha, Fran Sotero, diretora de Marketing e Novos Negócios da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), destaca que essa transformação acontece de forma gradual e depende do compromisso das próprias organizações.
"A gente foi abrindo canais pequenos, criando grupos de trabalho, chamando mais mulheres para a mesa. Quando você percebe, o movimento já está acontecendo. Ninguém faz uma revolução da noite para o dia."
Esse movimento gradual dentro das empresas pode contribuir para transformar a presença feminina, hoje mais consolidada, em participação efetiva nos espaços de decisão. “Para isso, será preciso seguir investindo em formação, redes de apoio e diálogo constante entre empresas, entidades e profissionais, consolidando uma agenda que já não é mais sobre abrir espaço, mas sobre ocupação”, conclui Elisa Rosenthal.
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