Durante décadas, a superdotação foi retratada quase exclusivamente através da lente do desempenho.
A criança que aprende mais rápido. O adolescente que tira notas altas. O adulto brilhante que se destaca profissionalmente.
Mas, para especialistas, essa visão reducionista pode esconder uma realidade muito mais complexa e, muitas vezes, dolorosa.
A discussão ganhou novo fôlego após a aprovação da Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação pelo Senado Federal.
A proposta prevê ações voltadas à identificação, acompanhamento e desenvolvimento desse público, historicamente invisibilizado nas políticas educacionais brasileiras.
O desafio é que a invisibilidade continua sendo enorme.
Estimativas apresentadas durante a tramitação da proposta apontam que o Brasil pode ter entre 4 e 10 milhões de pessoas com altas habilidades ou superdotação.
Apesar disso, o Censo Escolar registrou pouco mais de 56 mil estudantes identificados oficialmente.
Para o Dr. Gustavo Gattino, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, professor associado da Universidade de Aalborg (Dinamarca), especialista em intervenções mediadas pela música e pesquisador do desenvolvimento humano, os números revelam um problema que vai muito além da identificação.
"Quando falamos de superdotação, a sociedade costuma enxergar apenas aquilo que a pessoa produz. O que permanece invisível são suas necessidades emocionais. Muitas dessas pessoas crescem ouvindo que são inteligentes, mas raramente aprendem a lidar com a intensidade com que sentem e vivenciam o mundo", afirma.
Segundo ele, a superdotação não se resume a um QI elevado ou a talentos excepcionais.
"Muitas pessoas superdotadas apresentam alta sensibilidade emocional, perfeccionismo, senso de justiça muito desenvolvido, necessidade intensa de significado, hiperfoco em determinados temas e uma sensação frequente de não pertencimento. São características que nem sempre aparecem em boletins escolares, mas impactam profundamente a qualidade de vida."
QUANDO PENSAR DEMAIS VIRA UM PESO
A imagem popular do superdotado costuma estar associada à facilidade.
Na prática, porém, muitos relatam justamente o contrário.
Ansiedade, autocobrança excessiva, dificuldade para desligar a mente, isolamento social e exaustão emocional são temas recorrentes entre adolescentes e adultos com altas habilidades.
"Existe uma intensidade cognitiva que muitas vezes faz com que a pessoa esteja constantemente analisando, antecipando cenários ou refletindo sobre diferentes possibilidades. Para algumas pessoas isso pode ser extremamente produtivo. Para outras, pode se transformar em sobrecarga", explica Gustavo.
ONDE A MÚSICA ENTRA NESSA HISTÓRIA?
Ao contrário do que muitos imaginam, a música não atua apenas como entretenimento.
Diversos estudos mostram que ela mobiliza simultaneamente áreas relacionadas à emoção, memória, atenção, recompensa e regulação fisiológica.
Para Gustavo, essa característica faz da música uma ferramenta particularmente interessante para pessoas superdotadas.
"A música oferece uma experiência que organiza emoções sem necessariamente exigir explicações. Muitas vezes ela ajuda a estruturar sentimentos, criar momentos de pausa e promover uma forma diferente de processamento interno."
Ele fala também a partir da própria vivência.
Além de ser pesquisador da área, Gustavo é superdotado e pai de uma criança superdotada.
"Como pesquisador, vejo os dados científicos. Como pai e como pessoa superdotada, vejo algo que os números nem sempre conseguem mostrar: a necessidade humana de pertencimento. Muitas vezes a música cria justamente esse espaço."
PERTENCIMENTO, IDENTIDADE E EXPRESSÃO
Um dos aspectos mais discutidos entre especialistas é que pessoas superdotadas costumam encontrar poucas oportunidades para compartilhar interesses, experiências e formas de perceber o mundo.
Nesse cenário, a música pode funcionar como linguagem, identidade e conexão.
"A música permite expressão, criatividade e comunicação. Ela cria pontes. Em muitos casos, ajuda a pessoa a se reconhecer e a encontrar espaços onde pode ser autêntica."
Segundo Gustavo, isso vale tanto para crianças quanto para adolescentes e adultos.
"Nem toda pessoa superdotada será músico. Mas muitas encontram na música uma forma de organizar pensamentos, regular emoções e construir relações mais significativas."
UMA CONVERSA QUE ESTÁ APENAS COMEÇANDO
A aprovação da nova política nacional representa um avanço importante para o reconhecimento das altas habilidades no Brasil.
Mas especialistas defendem que o debate precisa ir além da identificação e do desempenho acadêmico.
"Reconhecer a superdotação é fundamental. Mas reconhecer as necessidades emocionais dessas pessoas talvez seja ainda mais urgente. Porque ninguém é definido apenas pela sua inteligência. Todos nós precisamos de conexão, acolhimento e oportunidades para desenvolver quem somos por inteiro", conclui Gustavo.
SOBRE O ESPECIALISTA
Dr. Gustavo Gattino é doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, professor associado da Universidade de Aalborg (Dinamarca), especialista em intervenções mediadas pela música, pesquisador, palestrante e autor de dez livros publicados em diferentes idiomas sobre música, saúde e desenvolvimento humano.
Com mais de 20 anos de experiência clínica e acadêmica, atua com foco em música, cérebro, regulação emocional, saúde mental, autismo, superdotação, altas habilidades e neurodesenvolvimento.
https://www.instagram.com/gustavogattino/
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