Para Vinícius Romano, CEO da Camerite, gerir uma empresa que escala rápido exige a mesma lógica de quem projeta sistemas, ou seja, decompor problemas, prever falhas e construir com margem para crescer
Há uma premissa que circula nos bastidores de comitês executivos e que resume bem o momento atual das empresas. Gerir um empreendimento hoje se assemelha menos com comandar uma orquestra e mais com manter no ar um sistema distribuído, cheio de dependências, gargalos e pontos de falha. Trata-se de uma espécie de diagnóstico da situação e não de simples força de expressão.
Um levantamento da Deloitte com mais de 600 executivos globais, o Global Technology Leadership Study 2026, mostra que a tecnologia deixou de ser suporte operacional e passou a ocupar o centro da estratégia corporativa. A dimensão desse recorte aparece em outro número: 78% dos líderes ouvidos pelo Panorama da Transformação Executiva 2026 citam escalar tecnologia como o principal desafio à frente, acima de receita e governança.
Da execução à arquitetura
Como exemplo desse cenário, temos Vinicius Romano, CEO da Camerite. Formado em processamento de dados e com MBAs em gestão de projetos e gestão estratégica de TI, o executivo enxerga nesse cenário um chamado para um raciocínio que a maioria dos executivos nunca precisou exercitar: o de quem projeta software, e não apenas opera um negócio.
"Um sistema mal arquitetado quebra sob carga, por mais que você reforce a equipe que o mantém. Com empresa acontece a mesma coisa. Se a estrutura não foi pensada para escalar, você só descobre isso na hora errada", diz Romano.
A comparação vem de experiência própria. Antes de assumir a Camerite, em 2024, Romano passou quinze anos em cargos de liderança técnica, entre TI, desenvolvimento e entrega de projetos. Trata-se de um caminho cada vez menos raro, já que se observa no mercado que executivos de tecnologia vêm ocupando posições cada vez mais próximas do centro de decisão, incluindo cargos de CEO, à medida que a tecnologia se torna a própria estratégia das empresas.
A forma como Romano se expressa revela sua origem na tecnologia. Em suas análises, conceitos como dependências, débito técnico, escalabilidade e ponto único de falha aparecem com naturalidade. Não para tornar o discurso mais complexo ou criar distanciamento, mas porque, em sua visão, esses conceitos ajudam a explicar por que tantas empresas encontram dificuldades justamente quando começam a crescer.
Decompor antes de resolver
O princípio mais citado por Romano é o da decomposição: quebrar um problema grande em partes menores, testáveis e independentes, antes de sair implementando solução. É assim que engenheiros de software evitam sistemas frágeis, e é isso, na avaliação dele, que falta a boa parte da gestão brasileira. "A tentação, quando a empresa cresce rápido, é empilhar solução em cima de solução sem entender a base. Funciona por um tempo. Depois vira dívida técnica, só que aplicada a processo, gente e operação", afirma o executivo.
Na prática, isso significa revisar a estrutura antes de expandir, e não o contrário. Segundo o CEO, essa lógica orientou a reestruturação da Camerite desde que ele assumiu o comando, há dois anos e meio. Nesse período, a empresa promoveu mudanças em sua base tecnológica e operacional para sustentar uma nova fase de crescimento, com mais eficiência, consistência e capacidade de evolução.
Um problema que já não é só técnico
O tema ganha urgência fora do universo tech também. Segundo o Business Trends Report 2026, da IBM, 95% dos executivos consideram a capacidade de tomar decisões rápidas uma vantagem competitiva essencial diante da volatilidade atual do mercado. Na leitura de Romano, isso descreve, com outras palavras, o que engenheiros chamam de sistema resiliente, ou seja, responder bem sob estresse porque foi projetado para isso, não por sorte.
Uma pesquisa da PwC com CEOs de empresas de tecnologia caminha na mesma direção. Entre eles, 79% apontam a falta de liderança qualificada como principal barreira ao crescimento em 2026, um sinal de que o gargalo já deixou de ser a tecnologia disponível e passou a ser a capacidade de estruturar o que já existe.
"Ninguém precisa saber programar para liderar bem. Mas todo CEO se beneficia de entender como sistemas complexos falham, porque toda empresa é um sistema complexo", resume Romano.
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