Projeto social “Coletivo Aspas Duplas de Mãos em Mãos” quer transformar as cidades em bibliotecas vivas.

Projeto social “Coletivo Aspas Duplas de Mãos em Mãos” quer transformar as cidades em bibliotecas vivas.

Em um país onde o acesso à literatura ainda enfrenta inúmeros desafios, iniciativas independentes têm surgido para ampliar o encontro entre leitores e livros. Uma delas nasce no universo da literatura colaborativa: o projeto social “Aspas Duplas de Mãos em Mãos”, criado pelo Coletivo Literário Aspas Duplas.

No Brasil, a palavra coletivo tem mais do que um significado. Pode indicar um grupo de pessoas reunidas por um objetivo comum, mas também é o nome popular que muitos brasileiros dão ao transporte que cruza cidades carregando histórias anônimas todos os dias: o ônibus.

É nesse contexto que os dois sentidos se encontram de forma curiosa: um coletivo de escritores decidiu colocar livros justamente dentro do coletivo que percorre as ruas. Assim nasceu o projeto social “Aspas Duplas de Mãos em Mãos”, uma iniciativa ousada que pretende transformar o transporte urbano em uma pequena biblioteca itinerante.

 

A ideia é simples e poderosa: deixar livros em ônibus, trens e metrôs para que qualquer passageiro possa encontrá-los, levá-los para casa, ler e depois devolvê-los ao fluxo da cidade. Cada exemplar se torna, assim, um viajante… cruzando bairros, estações e mãos diferentes.

Mais do que distribuir livros, o projeto reforça um princípio que o coletivo vem defendendo em suas ações editoriais: a democratização da literatura.

O desafio da leitura no Brasil

Iniciativas como essa ganham importância quando se observam os números da leitura no país. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o maior levantamento nacional sobre hábitos leitores, apenas 52% dos brasileiros podem ser considerados leitores, ou seja, leram pelo menos parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa.

Outro dado revelador é a média anual de leitura: cerca de 4 a 5 livros por pessoa, incluindo obras indicadas pela escola ou pelo trabalho. Quando se observa apenas a leitura por prazer, esse número tende a ser ainda menor.

Em outras palavras: não basta produzir livros, é preciso fazê-los chegar às pessoas.

E às vezes o caminho mais simples para isso pode ser justamente aquele que milhões de brasileiros percorrem todos os dias: o trajeto entre casa e trabalho.

Uma biblioteca que anda pela cidade

É nesse espaço cotidiano que o projeto Aspas Duplas de Mãos em Mãos ganha vida.

Os livros colocados em circulação recebem uma etiqueta identificadora e um QR Code, permitindo que os leitores registrem onde encontraram aquela obra. Assim, cada exemplar passa a ter uma espécie de diário de viagem, mostrando por quais lugares e leitores ele já passou.

A proposta transforma o transporte urbano em algo mais do que um meio de deslocamento. Durante alguns minutos — entre um ponto e outro — o coletivo deixa de ser apenas um veículo e se torna um espaço de encontro entre leitores e histórias.

Uma inspiração que veio de Portugal

A iniciativa brasileira também dialoga com um projeto internacional. O “Páginas em Movimento”, realizado em Portugal pelo escritor angolano Neo Yasuke, foi uma das inspirações para a criação do programa do Coletivo Aspas Duplas.

Assim como no Brasil, a proposta portuguesa parte de uma ideia simples: permitir que livros circulem livremente pela cidade, criando oportunidades inesperadas de leitura.

Ao adaptar o conceito, o coletivo brasileiro buscou ampliar essa corrente literária, incentivando leitores a compartilhar livros e experiências culturais.

Reinventando o acesso à literatura

O projeto social também reflete a própria filosofia do Coletivo Literário Aspas Duplas.

Nos últimos anos, o grupo tem se destacado por reunir escritores iniciantes e experientes em coletâneas literárias que abrem espaço para novas vozes da literatura contemporânea. Em vez de apostar apenas em nomes consagrados, o coletivo busca ampliar a participação de autores que ainda estão construindo suas trajetórias.

Essa postura dialoga com um debate cada vez mais presente no mercado editorial brasileiro: quem tem acesso à publicação e à circulação de livros.

Ao criar oportunidades para novos escritores e, ao mesmo tempo, colocar livros diretamente nas mãos dos leitores, o coletivo atua em duas frentes essenciais da democratização cultural.

Como participar do projeto

Para manter os livros em circulação, o projeto depende da participação do público.

Qualquer pessoa pode contribuir doando livros de literatura em bom estado, que serão preparados e colocados em circulação no transporte público. Também é possível enviar exemplares diretamente ao projeto ou se tornar voluntário, ajudando a expandir a iniciativa para outras cidades.

Participar é simples, e o gesto pode ser pequeno: separar um livro da estante, entregá-lo ao projeto e permitir que ele encontre novos leitores. E, entre uma parada e outra, talvez alguém encontre uma história capaz de transformar o seu dia.

Assinatura

Sérgio Machado

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