Relógio biológico entra na agenda da produtividade nas empresas

Relógio biológico entra na agenda da produtividade nas empresas

 

No Dia Mundial do Sono, celebrado em 13 de março, especialistas têm chamado atenção para um fator que começa a ganhar espaço nas discussões sobre produtividade e saúde no trabalho: a qualidade do descanso. “O sono deixou de ser apenas uma questão de bem-estar individual e passou a ser um elemento central para o desempenho cognitivo e a capacidade de tomar decisões”, afirma a especialista em comportamento humano e produtividade Gaya Machado.

Dados do Vigitel 2024 (Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas) indicam que 3 em cada 10 brasileiros apresentam pelo menos um sintoma de insônia, como dificuldade para pegar no sono, despertares durante a noite ou acordar antes do horário desejado sem conseguir voltar a dormir.

O levantamento do Ministério da Saúde, realizado em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal, também mostra que 20% dos adultos dormem menos de seis horas por dia, quantidade considerada insuficiente para a recuperação adequada do organismo.

Para Gaya Machado, esses dados ajudam a explicar por que o sono passou a ser discutido também sob a perspectiva da produtividade. “O sono é o momento em que o cérebro reorganiza informações, consolida memórias e recupera funções cognitivas essenciais. Quando esse processo é prejudicado, nossa capacidade de concentração, aprendizado e tomada de decisão também é afetada”, afirma.

O papel do relógio biológico

A relação entre sono e desempenho está ligada ao chamado ciclo circadiano, o relógio biológico que regula o funcionamento do organismo em ciclos de aproximadamente 24 horas.

Esse sistema controla processos como a liberação de hormônios, os níveis de alerta e a pressão natural para o sono. Ao longo do dia, o cérebro passa por oscilações naturais de energia mental, com momentos de maior clareza cognitiva, períodos de queda de atenção e fases de recuperação.

Pesquisas em cronobiologia indicam que o desempenho cognitivo segue esse padrão previsível ao longo do dia. Quando tarefas complexas ou decisões importantes são realizadas em momentos de fadiga mental, aumenta a probabilidade de erros, análises superficiais e dificuldade de concentração.

Ritmos individuais e impacto no trabalho

Outro fator importante é o cronótipo, característica biológica que determina em que período do dia cada pessoa tende a ter mais energia e clareza mental. Enquanto alguns indivíduos apresentam maior produtividade nas primeiras horas da manhã, outros atingem o pico de desempenho no meio do dia ou no final da tarde.

Essas diferenças não estão apenas relacionadas a hábitos ou disciplina, mas refletem características biológicas individuais. Trabalhar de forma constante contra o próprio ritmo natural pode comprometer tanto a produtividade quanto o bem-estar.

Os dados do Vigitel também mostram que os sintomas de insônia são mais frequentes entre mulheres e ocorrem em um contexto mais amplo de fatores de risco à saúde. Segundo o levantamento, seis em cada dez adultos brasileiros estão com excesso de peso, enquanto diagnósticos de diabetes e hipertensão seguem em crescimento.

Produtividade também entra no debate

Para Gaya Machado, compreender o funcionamento do relógio biológico pode ajudar profissionais e empresas a repensar a forma como organizam rotinas e atividades ao longo do dia.

“Entender quando o cérebro está mais preparado para determinadas tarefas pode ser tão importante quanto definir o que precisa ser feito. Quando alinhamos nossas atividades aos ciclos naturais do organismo, conseguimos trabalhar com mais foco, clareza e eficiência”, afirma.

Segundo a especialista, a discussão sobre sono tende a ganhar espaço nas organizações à medida que cresce a preocupação com saúde mental, desempenho cognitivo e gestão de energia no trabalho. “A produtividade não depende apenas de mais horas de trabalho, mas da qualidade da atenção e da capacidade de tomar boas decisões  e isso começa com uma noite de sono adequada”, finaliza.

Assinatura

Ana Cunha

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