A PEC do fim da escala 6x1 chegou ao Senado, mas as empresas não se prepararam para o que vem depois

A PEC do fim da escala 6x1 chegou ao Senado, mas as empresas não se prepararam para o que vem depois

Por muito tempo, o fim da escala 6x1 foi um tema de rede social e de pauta sindical. Deixou de ser. A Proposta de Emenda à Constituição, que extingue esse modelo de jornada, foi aprovada na Câmara dos Deputados e na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Na prática, ela reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, garante dois dias de descanso consecutivos e faz isso sem redução de direitos. Há inclusive propostas que avançam a discussão até 36 horas semanais, também sem perda de direitos. É uma mudança estrutural, não um ajuste de calendário, e ainda assim uma boa parte das empresas com quem converso trata o assunto como “projeto que está longe de virar lei”.

Acompanhando esse debate de perto entre empresas de mais de 50 setores da economia brasileira, vejo que há uma dissonância perigosa: o debate está nas ruas, nas convenções partidárias e, agora, nas urnas de 2026, mas a operação, o RH e o financeiro de muitas companhias ainda não simularam o que essa mudança significa em folha, em headcount e em desenho de escala.

O que muda, na prática - A PEC em tramitação muda a atual escala de seis dias trabalhados para um de folga - que se consolidou em setores como varejo, hotelaria, saúde, segurança privada e serviços em geral - ao garantir dois dias de descanso e reduzir o teto semanal. Some-se a isso outra frente que já está em discussão: novas diretrizes que condicionam o trabalho aos domingos e feriados à existência de convenção ou acordo coletivo com o sindicato da categoria. Ou seja, mesmo onde a lei permitir, a negociação coletiva ganha ainda mais peso, o que já é uma tendência desde a reforma trabalhista de 2017, quando o acordado passou a valer mais que o legislado em pontos como controle de ponto, banco de horas e fracionamento de férias em até três vezes. O que continua fora da mesa de negociação é o núcleo constitucional: salário mínimo, décimo terceiro, FGTS e licença-maternidade.

O que torna 2026 diferente é que essa discussão entrou no centro da disputa presidencial. Mas seria um erro estratégico esperar a urna para começar a se mexer. Independentemente de quem vença em outubro, a pressão por jornadas menores e por mais dias de descanso já é uma tendência de longo prazo, com apoio popular relevante e tramitação avançada no Legislativo.

A 6x1 não caminha sozinha - Vale registrar que essa não é a única frente de transformação da relação capital-trabalho em curso neste momento. Enquanto a PEC da jornada avança no Senado, o Ministério da Fazenda estuda um mecanismo para cobrar contribuição previdenciária adicional de empresas que concentram parcela muito alta de trabalhadores contratados como pessoa jurídica a chamada “pejotização abusiva”. 

O ministro Dario Durigan já deu um parâmetro informal: uma empresa com cerca de 10% do quadro em PJ tenderia a ser vista como terceirização normal; com 80% entraria no radar de uma cobrança extra. Nada disso é lei ainda, são estudos, sem alíquota ou texto definido até agora. Mas o recado para quem contrata é o mesmo da 6x1: o modelo de organização do trabalho no Brasil está sendo redesenhado em várias frentes ao mesmo tempo, e reagir depois que a lei sai custa sempre mais caro do que se planejar antes.

O que fazer agora? Para empresas que operam com escalas intensivas, como varejo, hotelaria e alimentação, saúde, logística e segurança, o fim da 6x1 não é uma questão de “se”. É uma questão de “quando” e “como”. E “como” é a parte que dá para controlar hoje: mapear quais funções e unidades dependem da escala atual, simular o custo de redesenhar turnos com dois dias de folga, calcular se a resposta é contratar mais gente, redistribuir carga horária ou repactuar acordos coletivos, e revisar, desde já, os instrumentos coletivos que sustentam a operação nos domingos e feriados.

Antes de qualquer mudança regulatória de peso entrar em vigor, entender o impacto operacional e financeiro com antecedência, para que a transição (quando ela vier) seja decisão estratégica, não remendo de última hora.

*Por Junior Rozante, CEO da RZ3 e especialista em gestão estratégica e transformação organizacional.

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