
*Por Monica Pasello
O inglês hoje não é mais considerado um diferencial na área da saúde, tornando-se parte essencial da competência profissional no setor. A crescente circulação de pesquisas, protocolos, tecnologias e oportunidades internacionais tem ampliado a demanda por profissionais capazes de compreender e se comunicar com segurança no idioma. Essa realidade também se reflete na procura por exames de proficiência: cada vez mais, médicos, enfermeiros, pesquisadores e gestores buscam comprovar uma habilidade que passou a ter impacto direto em sua atualização, mobilidade e desenvolvimento de carreira.
No entanto, antes mesmo do atendimento ao paciente, o inglês já se faz presente na formação. Grande parte da produção científica de referência, das diretrizes clínicas mais atualizadas e dos materiais de estudo de ponta é publicada em inglês. Ler com autonomia esse conteúdo sem depender apenas de traduções, que nem sempre acompanham o ritmo das descobertas, é o que permite ao profissional manter-se atualizado na fonte primária do conhecimento. Nesse ponto, o domínio do idioma se torna condição para estudar com profundidade.
No Brasil, durante décadas a formação tratou o inglês apenas como ferramenta de leitura, útil para acompanhar artigos e diretrizes internacionais, mas dispensável no contato direto com o paciente. Esse recorte, porém, tem ficado estreito diante de duas realidades cada vez mais presentes, sendo o atendimento a pacientes estrangeiros, turistas e imigrantes em grandes centros urbanos e regiões turísticas, e a crescente internacionalização da prática, com telemedicina, intercâmbios, residências no exterior e colaborações em pesquisas. Segundo o relatório do IMARC, o mercado de turismo médico no Brasil atingiu US$ 3,7 bilhões em 2025, com projeção de alcançar US$ 16,3 bilhões até 2034. O inglês passa a ser, nesse contexto, parte da competência profissional, e não apenas da formação teórica.
Para profissionais que atuam ou pretendem atuar em outros países, por exemplo, tudo começa com uma pergunta simples e que precisa ser bem respondida: o paciente compreendeu o que foi dito? Antes de decidir como tratá-lo, é preciso garantir que a informação chegou de forma clara, o que é mais complexo quando paciente e profissional não compartilham a mesma língua materna.
Na prática, isso se traduz em situações concretas:
- Perguntas de triagem como "Where does it hurt?" ("Onde dói?") ou "Do you have any allergies?" ("Você tem alguma alergia?");
- Condutas em emergência como "Stay calm, we are here to help" ("Fique calmo, estamos aqui para ajudar");
- Orientações em consultas pediátricas como "It's okay, this won't hurt" ("Está tudo bem, isso não vai doer").
São frases simples, mas que exigem precisão. Um erro de vocabulário pode alterar completamente o entendimento de um sintoma ou de uma orientação. Vocabulário técnico em inglês, incluindo siglas amplamente usadas em prontuários e literatura internacional, como BP (Blood Pressure) e HR (Heart Rate) também compõem esse repertório.
Além do vocabulário, a comunicação intercultural exige, acima de tudo, sensibilidade. Falar devagar, usar frases curtas, manter contato visual respeitoso e aplicar técnicas como o teach-back (pedir ao paciente que repita, com suas próprias palavras, o que entendeu).
Há, ainda, uma terceira dimensão, além da área acadêmica e atendimento direto ao paciente, que está ligada ao futuro da carreira. O inglês é o idioma que abre portas para acompanhar tendências antes que cheguem traduzidas, participar de estudos clínicos e projetos de pesquisa internacionais e construir networking com colegas de outros países em congressos, publicações e colaborações. Em uma profissão que evolui em ritmo acelerado, o idioma funciona como um multiplicador de oportunidades, afinal quem se comunica em inglês tem acesso mais rápido ao conhecimento e à rede que impulsionam o crescimento profissional.
A questão central, portanto, não é se o profissional deve ou não ser fluente em inglês, mas como o domínio funcional do idioma passa a integrar seu dia a dia de forma natural, seja na leitura de materiais de estudo, no atendimento ou na construção da carreira. Na ausência de política pública e treinamento formal, é o próprio profissional quem precisa buscar formas de preencher essa lacuna de aprendizagem.
E é justamente aqui que as certificações de proficiência cumprem um papel importante. Mais do que um documento, uma certificação oferece um parâmetro objetivo e confiável do nível de inglês de cada pessoa, ajudando o profissional a entender onde está, o que precisa desenvolver e como evoluir de forma estruturada. O inglês é um itinerário formativo em si, no qual cada avanço conta, pois não é preciso alcançar a fluência plena para colher ganhos concretos. Já nos níveis básico e intermediário, o profissional amplia sua autonomia para estudar, atender e se conectar com o mundo, e uma medida clara desse progresso torna esse caminho mais consistente.
Por fim, é importante frisar que, assim como a comunicação entre profissionais de saúde já é tratada como fator crítico de segurança do paciente, a comunicação em um segundo idioma tende a ocupar lugar semelhante de importância. O objetivo não é a fluência plena, mas a capacidade de se comunicar com clareza, empatia e segurança. O que defendo é que esse domínio seja tratado como parte da formação: mensurável, desenvolvível e ao alcance de quem decide investir nele, um passo de cada vez.
* Monica Pasello é CEO da TOEIC Brasil.


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