Marketing esportivo precisa transformar paixão em relacionamento, afirma Maykon Marins

Marketing esportivo precisa transformar paixão em relacionamento, afirma Maykon Marins

Head of Growth do Lance! destaca que marcas precisam ir além da exposição e compreender comportamento, identidade e emoção do torcedor para construir conexões relevantes no esporte


 

O marketing esportivo deixou de ser apenas a presença de uma marca na camisa de um clube, em uma placa de estádio ou durante a transmissão de uma partida. Em um cenário marcado pela disputa pela atenção do público, pelo crescimento das redes sociais e pela mudança na forma de consumir informação, empresas precisam compreender que o principal ativo do esporte está na relação emocional construída com o torcedor.


 

A avaliação é de Maykon Marins, Head of Growth do Lance!, que participou de uma palestra para futuros jornalistas da Universidade Veiga de Almeida. Durante o encontro, o executivo abordou as transformações do marketing esportivo, a construção de comunidades e a importância do jornalismo na consolidação das narrativas que movimentam a indústria do esporte.


 

Segundo Marins, o esporte reúne características que empresas normalmente levam anos e grandes investimentos para tentar construir em torno de suas próprias marcas: atenção, emoção, identidade, pertencimento e relacionamento.

“O esporte é uma plataforma de atenção, emoção, identidade e relacionamento. É justamente isso que interessa às marcas”, afirmou.


 

Para o executivo, essa característica transforma o esporte em uma espécie de “atalho emocional”. Diferentemente da publicidade tradicional, que muitas vezes precisa interromper o consumidor para apresentar uma mensagem, o marketing esportivo permite que a empresa participe de uma relação que já existe.

“A marca não precisa construir toda a emoção do zero. Ela pode se associar à emoção que já existe”, explicou.


 

Marins destacou que existe uma diferença entre o marketing do esporte e o marketing por meio do esporte. No primeiro caso, estão as estratégias utilizadas por clubes, competições e organizações para vender ingressos, camisas, programas de sócio-torcedor ou outros produtos diretamente ligados à atividade esportiva. No segundo, empresas de diferentes segmentos utilizam clubes, atletas, campeonatos ou outras propriedades esportivas para atingir objetivos de comunicação e negócio.


 

Nos dois casos, porém, o ponto central é o mesmo: a paixão do torcedor.

Para Marins, um dos erros das marcas é enxergar o investimento esportivo apenas como compra de audiência. Embora alcance e visibilidade continuem importantes, o diferencial está na possibilidade de transferir atributos associados ao esporte para a percepção da empresa.


 

Quando uma marca escolhe um atleta, um clube ou uma competição, segundo ele, também escolhe os valores e significados que estarão associados à sua imagem.


 

Por isso, o chamado “feat” entre a empresa e a propriedade esportiva se tornou cada vez mais relevante. Apenas estampar uma marca em um espaço de grande visibilidade não garante conexão com o público.

“Se a marca chega simplesmente para comprar um espaço, ela pode ser ignorada ou até interromper a paixão do torcedor. O marketing esportivo precisa entender os significados, os códigos sociais e a história daquela relação”, destacou.


 

Torcedor não consome apenas esporte, consome identidade

Durante a palestra, Marins também relacionou conceitos de sociologia, literatura e economia comportamental ao marketing esportivo. Segundo ele, a escolha de um clube ou de um atleta não pode ser compreendida apenas como uma decisão de consumo.


 

A camisa de um time, por exemplo, pode carregar memórias familiares, identidade regional, pertencimento e histórias compartilhadas por diferentes gerações.

“Uma camisa de futebol não é apenas uma peça de roupa. Ela pode dizer: eu pertenço a esse grupo, essa é a minha história, essa é a história da minha família”, afirmou.


 

Essa dimensão simbólica ajuda a explicar por que grandes eventos esportivos mobilizam milhões de pessoas sem que seja necessário convencer o público sobre sua relevância.

Uma final de campeonato, segundo Marins, pode durar poucas horas, mas continuar sendo lembrada por décadas. É justamente essa capacidade de produzir histórias, heróis, derrotas, rivalidades e memórias que transforma o esporte em um ativo tão poderoso para as marcas.


 

Redes sociais mudaram porque o público mudou

As transformações digitais também fizeram parte da discussão. Para Marins, redes sociais, inteligência artificial e novas plataformas não devem ser analisadas isoladamente. A principal transformação está no comportamento das pessoas.


 

O público passou a consumir conteúdos de maneira fragmentada, por diferentes dispositivos e canais, reduzindo a dependência de modelos tradicionais de distribuição.


 

“O crescimento das redes sociais mudou o jornalismo e o marketing esportivo porque o comportamento das pessoas mudou”, afirmou.

Essa transformação também afeta estratégias de audiência baseadas exclusivamente em mecanismos de busca. Segundo ele, o avanço das ferramentas de inteligência artificial tende a diminuir a dependência dos veículos em relação ao tráfego originado por buscadores.


 

Nesse novo ambiente, marcas de mídia precisam trabalhar cada vez mais para construir relação direta com suas audiências.

O movimento passa pela criação de comunidades, conteúdos proprietários, programas, podcasts, transmissões e produtos capazes de estabelecer uma rotina de relacionamento com o público.


 

Marins citou o crescimento de canais originados no ambiente digital como exemplo dessa transformação. Projetos que nasceram como podcasts ou conteúdos pontuais passaram a criar grades de programação próprias, aprofundando a relação com suas comunidades e ampliando as possibilidades comerciais.


 

Conteúdo precisa construir relação, não apenas audiência


 

O executivo também destacou que métricas como visualizações, compartilhamentos e usuários únicos continuam fazendo parte das decisões de negócio. O desafio, entretanto, é não transformar números em único critério para a produção de conteúdo.

“O que é essencial no mercado é não esquecer do indivíduo”, afirmou. “Por mais que existam tecnologia, algoritmos e métricas, tudo se trata de pessoas.”


 

No Lance!, essa mudança tem levado o veículo a combinar a velocidade exigida pelo hard news com a produção de conteúdos mais aprofundados, originais e próprios, capazes de fortalecer a identificação do público com a marca.


 

A estratégia busca diminuir a dependência de plataformas externas e estimular o leitor a retornar diretamente ao veículo pela confiança e pelo valor que atribui ao conteúdo.

Jornalismo sustenta a indústria esportiva

Na parte final da palestra, Marins destacou a relação entre jornalismo e marketing esportivo. Para ele, o jornalista desempenha um papel central ao transformar partidas e competições em histórias que continuam existindo muito depois do encerramento de um evento.


 

O esporte não se resume aos minutos de uma partida. Há a trajetória dos atletas, a rivalidade entre equipes, a preparação, a expectativa, a escalação, a repercussão, as entrevistas, as análises e os personagens que dão significado ao acontecimento.

É justamente o jornalismo, segundo ele, que organiza e amplia essas narrativas.

“O jogo termina, mas a história continua”, afirmou.


 

Marins destacou que essa construção jornalística também amplia o valor comercial da indústria esportiva. Ao levar as histórias além dos estádios e das comunidades diretamente envolvidas, o jornalismo ajuda clubes, atletas, campeonatos e marcas a alcançar novas audiências.


 

“As marcas não querem ficar restritas a uma comunidade. Elas querem expandir. E essa expansão do movimento emocional que é o esporte se dá pelo jornalismo”, explicou.


 

Para o executivo, transmissões, reportagens, análises, conteúdos factuais e opinativos são parte do ecossistema que mantém viva a relação entre esporte e torcedor e, consequentemente, cria condições para que as marcas participem dessa relação.


 

“A força do marketing esportivo está justamente em entender esses movimentos simbólicos e sociais. E nada disso existe sem um olhar humano”, concluiu.


Assinatura

Mario Freire

Somente para seguidores mútuos


Comentários

Nenhum comentário ainda.