Testes de feminilidade, maternidade e pressão estética: livro “Elas em movimento” expõe violências enfrentadas no esporte
Março é o mês dedicado às lutas e conquistas das mulheres. No esporte, são representadas por salários justos, melhores condições para conciliar maternidade e carreira e reconhecimento das particularidades do corpo feminino nos treinos. Esse é o ponto central de “Elas em Movimento: A Multiplicidade de Experiências no Esporte”, livro organizado pelas psicólogas Adriana Lacerda e Clarice Medeiros e publicado pela Editora Appris.

A obra reúne 12 artigos e depoimentos de médicas, psicólogas, jornalistas, educadoras físicas e atletas para abordar temas muitas vezes invisíveis. “A proposta foi formar esse time e permitir que cada uma explorasse o universo do esporte a partir do tema que considerasse mais importante”, explicam Adriana e Clarice.
Entre as autoras, a ginecologista Tathiana Rebizzi Parmigiano, do Comitê Olímpico do Brasil, escreve sobre ginecologia do esporte; as psicólogas Jacqueline Sabino e Larissa Maria Carlos da Silva Rocha abordam o racismo no esporte em “Da Invisibilidade ao Protagonismo: A Mulher Negra no Esporte”; e a fonoaudióloga e professora da UFRJ Cláudia Maria de Lima Graça, a professora e pesquisadora Clarissa Rodrigues Gonzalez e a psicóloga e psicomotricista Ana Amalia Bloise tratam das esportistas na terceira idade.
Clarice Medeiros e Adriana Lacerda também assinam textos na obra. Clarice escreve sobre momentos marcantes na trajetória esportiva feminina, como a adolescência e a maternidade, refletindo sobre seus impactos emocionais e a importância de uma rede de apoio para a permanência das atletas no esporte. Já Adriana aborda a chamada “Tríade da Mulher Atleta”, discutindo os riscos à saúde associados à pressão por corpos magros e às práticas de emagrecimento acelerado no ambiente esportivo.

O livro também traz depoimentos emocionantes como o de Layana de Souza, moradora da Rocinha, fundadora do projeto "Mudando o Placar" e reconhecida como Líder Jovem pelo Comitê Olímpico Internacional, Rosicleia Campos, judoca olímpica (Barcelona 1992 e Atlanta 1996) e ex-técnica da Seleção Brasileira de Judô, e Rayssa Veras, paratleta de esgrima que disputou Paris 2024.
Os últimos Jogos Olímpicos marcaram um momento histórico: pela primeira vez desde a criação da era moderna, em 1896, metade dos atletas participantes eram mulheres. Ainda assim, a igualdade no esporte está longe de ser plena. Ao longo de mais de três décadas, cerca de 11 mil atletas foram submetidas aos chamados “testes de feminilidade” — procedimentos invasivos criados para validar a condição feminina, segundo a psicóloga e professora sênior da Universidade de São Paulo, Kátia Rúbio, que escreveu o prefácio do livro.
As desigualdades também se manifestam de outras formas: período menstrual ignorado nos treinos, uniformes pensados para expor o corpo, a ideia de que o esporte feminino é inferior ao masculino e a baixa presença de mulheres em cargos de liderança.
Apesar das conquistas recentes, as organizadoras reconhecem que ainda há um longo caminho pela frente. “Esperamos que haja maior incentivo à prática esportiva pelas mulheres; que seja possível desconstruir a misoginia presente na cultura e reproduzida no meio esportivo; e haja respeito e solidariedade às particularidades de ser mulher, compreendendo desafios e limitações para construir um ambiente mais igualitário”, diz Adriana.
Sobre as organizadoras:
Adriana Lacerda é Mestre em Ciência da Motricidade Humana e Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-Rio. É membro fundadora da Associação de Psicologia do Esporte do Rio de Janeiro (ASSOPERJ) e psicóloga dos esportes olímpicos do Clube de Regatas do Flamengo.
Clarice Medeiros é Mestre em Teoria Psicanalítica pela UFRJ, Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e coordenadora do Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade Veiga de Almeida.

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