Especialistas discutem no maior congresso de ortopedia pediátrica do Brasil como evitar alterações permanentes no pé
Entre 70% e 80% das crianças com paralisia cerebral espástica desenvolvem alguma deformidade no pé ao longo da vida. A mais comum é o pé equino, condição em que a criança caminha constantemente "na ponta dos pés". Embora muitas famílias enxerguem inicialmente apenas uma alteração na marcha, o problema pode evoluir para dor, limitação funcional e perda de independência se não for tratado no momento adequado.
No Brasil, especialistas alertam que o diagnóstico tardio e o acesso desigual a órteses e tratamentos ainda fazem com que muitas crianças cheguem tarde às intervenções capazes de evitar deformidades permanentes.
"O pé muitas vezes é a primeira cirurgia que esse paciente vai precisar na vida. É muito importante ter esse diagnóstico o quanto mais cedo possível para evitar consequências que podem durar décadas", afirma o ortopedista pediátrico Filipe Barcelos, do Hospital Israelita Albert Einstein, especialista no tratamento de pessoas com paralisia cerebral. O tema está entre os destaques do 16º Congresso Brasileiro de Ortopedia Pediátrica (CBOP 2026), promovido pela Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica (SBOP), que reúne especialistas nacionais e internacionais para discutir os avanços no cuidado musculoesquelético de crianças e adolescentes.
O pé equino é causado principalmente pela espasticidade muscular, característica comum da paralisia cerebral. Nos primeiros anos de vida, a deformidade costuma ser flexível e pode responder bem ao tratamento conservador. As principais ferramentas são a toxina botulínica, as órteses e a fisioterapia. Segundo os especialistas, elas não competem entre si, mas atuam de forma complementar. A toxina botulínica apresenta melhores resultados entre dois e seis anos de idade, quando o músculo ainda está encurtado, mas sem deformidades ósseas estabelecidas. As órteses ajudam a manter o pé na posição adequada durante a caminhada, enquanto a fisioterapia contribui para o fortalecimento muscular e o desenvolvimento do controle motor.
Os sinais de alerta surgem quando a criança deixa de responder a essas intervenções. Dificuldade para usar a órtese corretamente, piora progressiva da marcha, dor persistente e deformidades já instaladas nos ossos indicam que a avaliação cirúrgica pode ser necessária.
Para a maioria dos pacientes, a janela ideal para correção cirúrgica das deformidades do pé costuma ocorrer entre seis e dez anos. "Operar muito cedo aumenta as chances de a deformidade voltar. Esperar demais compromete a capacidade que o osso ainda tem de remodelar e prejudica a marcha na adolescência", explica o Dr. Barcelos.
Entre os procedimentos utilizados estão o alongamento do tendão de Aquiles e as osteotomias, que corrigem alterações ósseas já estabelecidas. A escolha depende da idade da criança, do grau da deformidade e das condições associadas.
Um dos casos apresentados no congresso é o de João Lucas, de 10 anos, criança com paralisia cerebral associada ao transtorno do espectro autista. Como o autismo influencia diretamente a adaptação à reabilitação e ao uso de órteses após a cirurgia, o planejamento terapêutico envolveu a família desde o início e combinou alongamento do tendão de Aquiles com osteotomia para corrigir a deformidade óssea.
Outro tema em debate no CBOP 2026 é o tratamento de crianças que passaram por rizotomia dorsal seletiva, procedimento realizado na coluna para reduzir a espasticidade. Especialistas observam que esses pacientes apresentam padrões de fraqueza muscular diferentes daqueles vistos tradicionalmente na paralisia cerebral, exigindo estratégias específicas de reabilitação.
O caso de Manu ilustra esse cenário. Após a cirurgia, ela apresentou dificuldade para levantar o pé e não obteve resposta satisfatória apenas com fisioterapia. A equipe optou pelo gesso seriado, técnica que promove o alongamento gradual da musculatura, alcançando ganho de 15 graus de dorsiflexão com uma única aplicação.
Além disso, especialistas discutem o avanço das cirurgias minimamente invasivas para o pé espástico e o uso crescente da inteligência artificial nos laboratórios de análise de marcha. As novas tecnologias ajudam a interpretar dados complexos do movimento e podem contribuir para decisões mais precisas sobre o melhor momento e a melhor estratégia de tratamento.
Para os especialistas, a principal mensagem para as famílias é que deformidades no pé associadas à paralisia cerebral não devem ser encaradas como uma consequência inevitável da doença. Quando identificadas precocemente e acompanhadas por uma equipe especializada, elas podem ser tratadas de forma mais eficaz, reduzindo o risco de dor, limitações funcionais e perda de independência ao longo da vida.
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