VLT NO LUGAR DO TRÓLEBUS? UMA TROCA ARREPENDIDA ANTES MESMO DE ACONTECER - Por Marcos Galesi

VLT NO LUGAR DO TRÓLEBUS? UMA TROCA ARREPENDIDA ANTES MESMO DE ACONTECER - Por Marcos Galesi

Se o prefeito quer trocar os trólebus por VLT, é bom preparar o discurso pra explicar o retrocesso travestido de modernidade. Em pleno 2025, enterrar um sistema limpo, funcional e consolidado como os trólebus em nome de um VLT que ninguém viu rodar é, no mínimo, um erro político histórico.

O Desmonte Começa pelo Berço: A Primeira Linha de Trólebus de São Paulo Está Sendo Executada

Há fatos que, por si só, carregam um simbolismo devastador. E quando o desmonte de um sistema de transporte começa justamente por sua linha inaugural, o recado é claro: a memória, a história e o compromisso com o futuro limpo estão sendo sepultados — sem cerimônia e sem vergonha.

A primeira linha de trólebus de São Paulo, implantada em 22 de abril de 1949, ligava o Centro da cidade ao bairro da Aclimação, e não por acaso, tornou-se o marco inicial da eletrificação do transporte coletivo sobre pneus no Brasil. De lá pra cá, o sistema resistiu a trocas de governos, crises econômicas e tentativas de sucateamento — sobreviveu porque era eficiente, silencioso e ecológico. Mas agora, ironicamente, morre pelas mãos do mesmo Estado que deveria defendê-lo.

E mais: morre em silêncio, sem alarde, como se não tivesse importância.

Uma escolha que fere a inteligência do povo

Desativar os trólebus não é uma decisão técnica, é uma decisão ideológica, econômica de curtíssimo prazo, embalada por discursos modernosos e justificativas vazias. Fala-se em “substituir por ônibus elétricos modernos”, mas omite-se que os trólebus já são elétricos, não poluem, não dependem de baterias caras e poluentes, e que toda a infraestrutura já está paga há décadas.

Começar o desmonte pela primeira linha não é coincidência. É um gesto simbólico de desdém pela memória e pela técnica. É como demolir a casa onde nasceu um grande herói nacional para construir um estacionamento. É um apagamento histórico disfarçado de “renovação”.

Não é apenas uma linha, é um pilar

Essa primeira linha é a Coluna de Trajano dos trólebus. Começar por ela é decapitar a identidade de um sistema que fez escola em São Paulo e foi referência para outras cidades do Brasil e do mundo.

Com a saída dos trólebus, o que se perde não é apenas um veículo, mas um conceito urbano de mobilidade limpa, contínua e silenciosa. Perde-se também a memória do Engenheiro Antônio Vicente, pioneiro do setor elétrico, homenageado anualmente por seu legado — o mesmo legado que agora é renegado.

Quem lucra com isso?

A pergunta que não cala: a quem interessa o fim do sistema trólebus?

Certamente não à população que respira um ar cada vez mais saturado. Não aos usuários que dependem de um transporte regular, estável e sem oscilações de preço por causa do diesel. Não aos técnicos que sabem do potencial da rede aérea já instalada. Então... quem ganha? Fabricantes de baterias, operadores de frota com contratos questionáveis ou apenas gestores que preferem cortar fitas a conservar o que funciona?

Resistir é preciso

A história não perdoa os que silenciam diante da injustiça. Começar o desmonte pela primeira linha é um ato de traição simbólica — é como queimar a bandeira de um legado que sobreviveu à fumaça do tempo. Mas ainda há tempo de resistir.

A memória da mobilidade elétrica de São Paulo não será enterrada sem voz, sem luta e sem registro. Estamos aqui, e vamos gritar: trólebus não é passado. Trólebus é futuro com raízes.

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Marco Brandemarte

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