Um movimento chama a atenção no universo das grandes organizações brasileiras. Na maioria delas, um CEO tem pela frente um horizonte mais curto do que se imagina, algo que pode deixar conselheiros e acionistas um pouco desconfortáveis. Segundo um estudo inédito da EXEC, a mediana de permanência do alto executivo no cargo é de apenas 2,5 anos. E mais: cerca de 44% dos mandatos terminam em até dois anos.
Para levantar esses dados, a pesquisa da EXEC considerou 130 mandatos em posições de CEO, diretor-presidente ou diretor-geral, identificados em uma base de 228 perfis de executivos C-level. Do total dos mandatos, 106 estavam concluídos e 24 em curso. A distribuição dos concluídos revela um padrão contundente: 32% duraram de 1 a 2 anos, 26% de 3 a 5 anos e 15% de 2 a 3 anos. A pesquisa da EXEC destacou que a janela crítica de consolidação do CEO se concentra nos dois primeiros anos.
Para André Freire, sócio-diretor da EXEC, o cenário não surpreende, pois está alinhado ao observado nos processos de sucessão e recrutamento de CEOs pela empresa. "O ambiente de negócios ficou mais dinâmico, os conselhos estão mais exigentes e a pressão por resultados acontece muito cedo."
Janela crítica: os dois primeiros anos
Segundo o executivo, uma das razões para o término precoce dos mandatos costuma ser o desalinhamento de expectativas entre Conselho, acionistas e CEO. "Muitas vezes o executivo é contratado para acelerar uma transformação, mas não recebe autonomia, recursos ou tempo compatíveis com essa expectativa", observa.
Outro fator é a velocidade de mudança do contexto. Segundo ele, o perfil considerado ideal no momento da contratação pode deixar de ser o mais adequado poucos trimestres depois, diante de mudanças de mercado, tecnologia ou estratégia. Há também uma redução da tolerância dos investidores e dos Conselhos com curvas de aprendizado mais longas. "Hoje existe uma cobrança muito maior por resultados desde o início do mandato", avalia Freire.
Por fim, um aspecto cada vez mais decisivo e que não aparece em planilhas é a relação entre CEO e Conselho. "A capacidade de construir confiança, transparência e alinhamento tornou-se tão importante quanto a capacidade de execução."
Mudança de perspectiva
Para Freire, o cargo de CEO passou a ser avaliado em ciclos mais curtos do que há uma década. "O ambiente competitivo muda mais rapidamente, as empresas revisitam suas estratégias com maior frequência e, consequentemente, também revisam suas lideranças", explica.
O sócio-diretor da EXEC destaca ainda um paradoxo: cresce a complexidade do papel do CEO ao mesmo tempo em que diminui o tempo para demonstrar entrega. "Espera-se que o CEO entregue resultados financeiros, conduza transformação digital, desenvolva lideranças, fortaleça a cultura e dialogue com diferentes stakeholders. A expectativa aumentou, mas o tempo disponível para demonstrar capacidade de entrega diminuiu."
O executivo aponta que esse período não chega a ser suficiente para um CEO implementar uma agenda completa. "Em muitas organizações, os primeiros 12 meses são consumidos pelo diagnóstico, formação da equipe e ajustes de rumo. As transformações mais profundas costumam aparecer depois disso."
Para ele, o estudo não deve ser interpretado apenas como um indicador de rotatividade, e sim como um sinal de que os primeiros dois anos se tornaram decisivos para o sucesso de um CEO. "Isso aumenta a importância de um processo de sucessão bem conduzido, de critérios claros na escolha do executivo e de um onboarding estruturado."
O sucesso de um mandato depende menos de encontrar um "CEO perfeito" e mais de construir um ambiente no qual o Conselho, acionistas e o executivo compartilhem expectativas, prioridades e critérios de avaliação desde o primeiro dia. Para Freire, mais importante do que definir um tempo ideal é entender se existe alinhamento entre o horizonte estratégico da empresa e o horizonte dado ao executivo. "Quando esse alinhamento existe, aumenta significativamente a probabilidade de um mandato bem-sucedido."
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